Porque ela

Nem só pelos olhares que, nitidamente, via-se estarem mais preenchidos que os olhos de outros;

Nem só pela franja caída sobre a testa, tão desatualizada, tão fora de contexto, tão sincera e real; fios de cabelos dos mais reais que pudessem existir;

Nem só pelos passos simples, pelos ombros fixos e determinados, pela voz suave e diferente de tudo com que se estava acostumado naquela região;

Mas por tudo.

Por toda a leveza que existia nela, por toda a paz que trazia consigo, por toda a realidade que expressava e sentia dentro de si mesma.

Pelo poder que tinha de fazer até o mais orgulhoso dos homens sentir vergonha de si e inveja da sinceridade com a qual ela poderia existir.

Porque, sim: ela existia sinceramente.

Com a ingenuidade mais bem sentida que pudesse existir, e o sorriso no canto dos lábios mais descompromissado que alguém pudesse soltar.

Se soltar.

Era o que acontecia, todos os dias, enquanto ela existia: se soltar.

Ela soltava seu coração que, imediatamente, num efeito dominó, soltava todos os objetos à sua volta, todos os quadros, todas as peças de roupas, todos os sentimentos, todos os desejos; tudo, tudo flutuava, numa dança de entrega da alma que ninguém, nem ela mesma, tinha consciência, mas que, invariavelmente, acontecia. Assim, flutuando, e sentindo o mundo e a vida flutuarem dentro de si.

 

E não, nem por nada disso, nem por tudo que aqui tenha escrito; mas apenas por ela, simplesmente.

Por ela simples.

 

Por simplesmente ela.

Colheres de Brigadeiro

Sim, ela realmente temia os talheres diferentes.

Mas sentia, no fundo, um passional desejo de que pudesse um dia vir a amá-los tanto quanto amou e ainda amava os anteriores.

E por esse dia ela esperou, intensa, calorosa e dolorosamente, olhando todos os dias para os talheres que não conseguia amar.

De Sentimentos

Meu corpo diz.

Artista do Espaço Sideral pt.2: Da Liberdade da Cor

A idéia é ser artista. Não “ser designer”; não “ser fotógrafo”; não “ser pintor”; não “ser cineasta”… A idéia é ter a Arte em si, e compreendê-la a ponto de entender qual a melhor forma para expressá-la, e expressar sua idéia através dela.

A idéia é não se limitar para, assim, não limitar a Arte, nem a forma de expressão.

Ser um artista do espaço sideral - sim, é o que eu sinto.

Emergir

- Já sentiu medo em morrer afogado?

- Não me lembro de algum dia não ter sentido isso.

- Certos dias, sinto medo de me afogar de tanto azul.

- Talvez devesse pedir a Deus que abrisse mais as nuvens para que, assim, o Sol clareasse mais.

- De azul, o Sol nada tem a ver. E, de Sol, Deus nada sabe.

- Claro, porque o Criador, de sua criação, nada sabe…

- …A criação, de seu criador, é que nada sabe.

- Talvez um dia eu possa te confirmar ou me provar errado.

- Está ansioso por esse dia?

- Não. Sim. Não. Não. Sinto curiosidade, só. Sei que o dia chegará quando tiver de chegar.

- Alguns tanto se preocupam com a vontade de ver teu Céu mais baixo sobre si a cada dia, quando problema mesmo será o dia em que olhará para cima e sentirá ter o Céu em sua cintura, percebendo, então, estar tão próximo Àquilo que tanto adoras que senti-Lo-á em teu estômago. Como fosse uma camada d’água infinita, tendo a metade superior de si dentro dessa piscina Divina.

- Talvez exista menos do que sua mente permite-lhe criar.

- Talvez exista mais do que sua mente permite-lhe ver; “Existe mais entre o Céu e a Terra…”

- Entre um Céu um metro acima da Terra, nada existe além de pernas, crianças e carros de Formula 1.

- Talvez um dia você perceba nunca ter tido pernas. E aí, então, conseguirá ter a leveza suficiente para voar por dentro da piscina Divina.

- Achei que tivesse medo de morrer afogado.

- Não tenho medo de morrer afogado. Tenho medo de me afogar em tanto azul.

- Não gosta de sua piscina Divina?

- Isso vai além de gostar e desgostar. Eu apenas não tenho outra opção. Um dia, você olha para cima e vê o Céu, tão lindo, lá, distante. N’outro dia, sente teu Céu em teu estômago e à sua volta, e tudo em si é azul. É muito azul. É muito azul… Certos dias, sinto medo de me afogar em tanto azul.

Das Verdades

Mas as circunstâncias da vida te curarão.

Do Abrupto

E então, todos choram.

A Carne da Cor

Ela segura suas mãos enquanto andam, lentamente, admirando os quadros na extensa parede, um a um, com longas pausas em que ele permanece em silêncio - um silêncio de reflexão ou, outras vezes, de puro respeito - ou então, pausas ocupadas por longas explicações e análises sobre cada detalhe da obra.

Por todo o trajeto desde a primeira obra até a última, ela nada fala. Nunca fala, neste tipo de visita.

Ele sempre se incomodou com isso, mas nada disse, nunca. Tentava imaginar o que poderia existir que a fizesse se fechar nestes momentos - nestes momentos tão magníficos: nada mais puro poderia existir que ter a chance de presenciar, à sua frente, o resultado da expressão mais profunda daquele artista, a representação daquele ser-humano, a essência do ser-humano. Era quase como uma falta de respeito sua total inexpressividade e apatia com aquele momento especial.

- Como pode? - e, assim, iniciou-se o longo discurso em prol de todos estes signficados e valores da História da Arte, da História de toda a Humanidade.

Como nos dias destas apreciações, ela nada disse. Nada, por durante todo o discurso, até ter a certeza de que ele havia dito tudo o que seu coração o mandava dizer. Ao final, ela havia compreendido todos os argumentos que ele lhe dissera e, então, só tinha uma coisa a fazer.

- Caminhe comigo à galeria.

Em cerca de quarenta e dois minutos, estavam eles cruzando a porta de vidro, em direção ao primeiro quadro à direita. Ele, em direção ao primeiro quadro à direita. Ela, determinadamente, virava-se à esquerda, e à direita novamente onde, antes, havia notado um pequeno monte de ferramentas, materiais e pedaços de um qualquer-coisa não usados na montagem do ambiente; e, de lá, voltou com uma grande moldura em mãos, maior que si mesma, em direção à última obra exposta.

Ignorando-o, que havia cruzado enquanto andava em direção ao fim da galeria, pára em frente à última obra e, em seguida, dá alguns passos para o lado, ficando de frente com um espaço vazio na parede, olhando fixamente para aquilo, como que vendo uma obra invisível.

Naquele espaço, então, abaixa-se, e encosta a moldura com cuidado na parede. E, em seguida, senta-se no chão, e encaixa-se dentro da grande moldura, e lá acomoda-se, com toda a naturalidade que a sinceridade de seus sentimentos poderia lhe proporcionar.

Ele, estupefato frente ao surreal.

- Que raios..?

Ela, livre de conceitos que lhe pudessem trazer algum resquício de vergonha ou algo tão inaceitável quanto, olha diretamente a ele.

- Enquanto você tanto admira o que chama de “representação do ser-humano”, decidi então abrir seus olhos, mostrando-lhe, simplesmente, o ser-humano. Você dá valor à representação, eu dou valor ao real. Boa visita.

E lá ela permanece por quanto mais de tempo não se sabe dizer, vivendo sua vida de ser humano em um quadro, com a realidade que ela acreditava faltar no resto das outras molduras ao seu lado.

Personagens D’Água

Assim, como um copo que a gente derruba sem querer, percebo como, sem nem perceber nem ter o mais básico controle sobre, acabo por conhecer as pessoas mais especiais do mundo.

Não conhecê-las como simplesmente trombá-las numa esquina e pedir desculpas mas, profundamente, conhecê-las. Sou tão honrado por conhecê-las, e me evergonho por só ter noção disso certas vezes, como um copo que a gente derruba sem querer.

Vou ser eternamente grato por ter conhecido vocês. Vocês. Vocês poucos, vocês sabem quem. Cabem em dedos de minha mão direita, ao mesmo tempo em que me preenchem o corpo todo.

Contos fantásticos que pareciam seguir por um caminho quando, na verdade, nunca o pôde, e o fim teve. Mas todo conto tem seu começo-meio-fim e, principalmente os mais especiais, são aqueles que terminam de forma totalmente inesperada, às vezes nos dando uma ligeira sensação de decepção por não ser como queríamos mas, logo em seguida, vem aquela compreensão de que, sim, aquilo foi lindo.

Foi lindo.

E assim seguimos com todos os contos de nossas vidas, conhecendo as personagens mais fantásticas de todas as fábulas já inventadas, assim, tão pertinhos de nós, de mim, de minha vida.

E nem posso descrever o quão feliz posso ficar ao ver meu copo se espatifando sobre o chão fosco e sólido, que então se torna tão molhado e brilhante, refletindo todas as cores de mim, ali, naquele chão, refletindo tudo que conheço de mim.

Certos dias, só desejo que todos os copos do mundo caiam, e todos possam entender em que, afinal, nós nos refletimos para que, então, possamos valorizar as gotas d’água que nos formam como somos. Que formam o melhor de nós.

O melhor de nós.

A Camiseta do Homem Verde

Neste dia, então, ele decidiu que queria uma kombi de cor rosa-choque com antenas de televisão no teto, como que retirado de um filme esquisito do início dos anos 90, norte-americano, claro. Certamente devia ter um algo que o relembrasse de sua infância.

Não que sua infância tivesse sido exatamente feliz - porque, como se deduz, não é fácil ser uma criança verde no início dos anos 90, por mais que kombis rosa-choque com antenas no teto fossem absolutamente admissíveis e toleráveis. Pra compensar essa discrepância, ele jogava gatos vivos do salão de festas de seu prédio - sim, o prédio tinha 18 andares e, sim, o salão ficava na cobertura.

Tivesse controlado seus ímpetos um pouco, talvez seus pais não se irritassem tanto com ele naqueles tempos, o que freqüentemente resultava nas ditas “intervenções” que, com razão, via com inteira apatia como algo sinceramente estúpido e inútil mas, sem muito o que pudesse fazer, porque, como sabemos, ele era verde, ele seguia então com aquela cena esquisita onde se via seu pai sentado em um local do sofá, sua mãe no local oposto do mesmo sofá - mas apenas por falta de outro lugar para sentar - e ele, na poltrona. E, então, os interrogatórios, que nunca fugiam da essência básica das perguntas de seus pais a ele: “por que você é assim?”.

Não importa qual o motivo que tivesse acionado a “intervenção”, ela sempre acabava sem solução, os gatos continuavam sendo atirados a Deus, e ele continuava sempre verde.

Fato que, certo dia, subiu à cabeça de seu pai que, aos seus dezesseis anos, encurralou-o perguntando-o: “filho, por que você é verde?”, ao que ele imediatamente respondeu “pai, por que você trafica drogas?”, o que fez toda a discussão morrer para nunca mais voltar à tona.

Depois de mais alguns anos, eles entenderam que não havia qualquer coisa que fizesse-o, algum dia, abrir mão de sua religião - ele tinha a mais sincera fé de que, sim, gatos eram abençoados por Deus de forma especial, por ter lhes dado o poder do vôo - o problema era que eles, os gatos, apenas não haviam sido avisados disso.

“Acredite nos gatos.”

Sua vizinhança, que desde muito tempo já havia aprendido a ignorar sua mais simples existência, quis incendiá-lo ao ver - e ouvir - as quatro caixas amplificadoras acopladas ao seu revolucionário veículo de transporte pelo espaço/tempo - também nomeado pelos outros por “kombi colorida hiper-esquisita”.

E, não, apesar de seu psicólogo ouvir dele até o dia de hoje ter superado totalmente o fato, não, não, ele ainda sente ódio de cada uma daquelas pessoas por terem sujado seu revolucionário veículo atacando-lhe ovos, ovos estragados, ovos fritos, ovos fritos sem quebrar a gema, omeletes, e x-eggs - ódio que, verdade seja dita, foi amenizado quando ele decidiu ouvir a voz da vingança e fez todos os gatos da vizinhança, um por um, comerem ovos por cinco dias, cada um - ovos inteiros, intactos, garganta abaixo - o que fez confirmar sua teoria dos gatos abençoados por Deus quando todos eles começaram a milagrosamente botar ovos, initerruptamente.

“Acredite nos gatos.”

Não que seus pais algum dia tenham-no compreendido, mas também tampouco tinham a mais rasa intenção de tal, assim como ele que, também, nunca precisou de qualquer compreensão alheia para realizar qualquer coisa.

E, não que você algum dia vá entender, mas, sim, ele comprou sua própria casa e, sim, ela tem mais de um andar e, sim, existe um estilingue de tamanho maior que o normal construído na janela de seu quarto, apontado para o céu.

E, sim, ele tem assinatura da Sky - vinte e quatro delas inclusive, como vinte e quatro pessoas diferentes - e, sim, sua casa pode ser vista de uma certa distância.

E, sim, ele é feliz.

De [Des]Vazio

Certas ausências dificilmente são sem razão.

Nem tampouco lhes falta um conteúdo, e um algo invisível preenchendo o certo espaço que imaginamos previamente estar vazio. E o cliche sobre o silêncio dizer muito é válido. Muito válido.

PS: Sim, eu gosto mesmo é de sentir.

Ele

Como a fumaça de um cigarro que, antes que você sequer perceba, já se dissipou pelo ar sem deixar o menor rastro, além apenas de um gosto amargo que fica na sua lingua e um estranho desejo de fumar novamente.

Sombras da Cidade

Desde pequeno, sempre tive pequenos medos. Coisas bestas, passageiras. Sempre foi complicado dormir em casas que não fossem a minha. Por mais que tudo corresse normalmente durante todos os dias, era sempre à noite, naqueles longos e aparentemente eternos instantes antes de o sono nos derrubar, quando havia o medo.

Meus amigos e eu sempre acabavamos por entrar nas intermináveis discussões sobre a existência ou não de fantasmas. Sempre havia opinião de qualquer um dos lados da questão. E então havia eu - o que se mantinha em silêncio, se lembrando das sombras desenhadas nas paredes antes de dormir.

Hoje já não penso mais sobre isso. Me acostumei com a existência deles. Vejo-os todos os dias, em vários locais diferentes pelos quais passo todos os dias, religiosamente. E por todos os outros que acabo por ir também. Eles estão em todo lugar.

Hoje um deles estendeu o braço humilde enquanto eu cruzava ao seu lado. Resisti. Como eu disse, já me acostumei com sua existência. Não há nada que eu possa fazer. Apenas evito entrar em conflito, e então está tudo bem.

Antes que eu chegasse em meu escritório, encontrei com vários deles, distantes, ocultos nos cantos das largas ruas da capital paulista. Um menino de prováveis sete anos, uma menina de prováveis catorze, e outra de prováveis dezessete. Prováveis irmãos. Sujos. Sujos. Andavam juntos e então se espalhavam por entre as pessoas no ponto de ônibus, estendendo o braço insistentemente frente a elas que, assim como eu, aprenderam a não olhar.

Fantasmas não existem.

O sinal não abria, e comecei a ficar impaciente porque, lá longe, vi um deles se aproximando diretamente a meu carro. Meu vidro estava aberto pela metade, e isso não era suficiente. Ele era imundo. Seus dreadlocks deviam conter a maior quantidade possível de sujeiras da cidade grande. Sua calça e blusa - as mesmas desde que cruzei esta rua pela primeira vez. Hoje era de mim que ele se aproximava. De repente, me vi novamente deitado sobre a cama que não era minha, numa casa que não era a minha, no escuro, instantes antes de o sono bater. Estava vendo as sombras nas paredes percorrerem em minha direção. Mas dessa vez o sono não iria bater. Eu continuaria acordado, e o fantasma chegaria em mim. Minhas pernas tremiam.

Sua boca horrendamente torta, com sujeiras gosmentas no canto dela, e restos de comida grudados naquela barba grande crespa, e ele olhava diretamente aos meus olhos. Grunhia qualquer coisa de insano, enquanto estendia a mão preta de podridão em minha direção.

Fui firme. “É apenas um fantasma”. Apertei rigidamente o botão, ao que o vidro sobe lentamente. E minhas pernas param de tremer. Não tinha mais com o que me preocupar.

“Ele não existe.”

“Fantasmas não existem.”

De Espaço

Descobrimos então que ali, naquele cantinho escondido, havia um vazio.
E ali resolvemos guardar nossa alma, com a ingênua certeza de que algo sem conteúdo devesse pertencer a um local inexistente.

Poligamia Matinal

- Bom dia, café.

E foi aí então em que ele percebeu que acordar e enxergar uma xícara de café gigante dormindo ao seu lado poderia não ser um bom sinal.

Hoje, ele está casado com outras três esposas - todas membros do The Coca-Cola Company.

De Quem

Certas vezes falo em Italiano pra fingir pra mim mesmo estar dizendo palavras que não são minhas quando, na verdade, são.

Já desaprendi o Português.

Já desaprendi quem sou eu.

Em Molduras Vazias

Decidiu então comprar uma pintura. Foi direto na mais adequada a ele, larga, espaçosa, cheia de sentimentos. “Magnifico”. Levou para casa feliz e na parede da sala pendurou.

Uma semana depois quis destruir. O irritava.

No dia seguinte amava novamente a pintura.

No fim de semana seguinte, o quadro se encontrava na lixeira. Ou os restos de.

Decidiu que aquele não o alegrava o suficiente. Devia haver cores frias em excesso. “Artistas e suas mensagens subliminares…”. Comprou outro. Somente cores quentes. Um deserto sob toda a paixão do Sol. “Perfeito”.

Em um mês, estava pendurado na parede da larga sala da vizinha pobre. “Cores em excesso. Artista exagerado”.

Comprou outro. Outro. Outro. Decidiu no inverno fazer uma fogueira.

A parede então se encontrava vazia novamente. Sentou-se à frente dela e ficou em silêncio. Aguardou.

Decidiu então comprar uma moldura. E a moldura vazia pendurou. E uma televisão velha queimada comprou e na estante principal colocou. E nas paredes do espaçoso quarto, pequenas molduras vazias espalhadas esporadicamente.

“Ok. Agora posso ver e sentir o que eu quiser ver e sentir quando eu achar que deva ver e sentir.”

Ele não comprou outras pinturas.

MOURISMENT #3

O mais tosco de se ter um blog por 3 anos é se esquecer do aniversário do mesmo.

Então, só pra constar: dia 19 último, quinta-feira, MOURISMENT completou seus 3 anos de pura pseudo-intelecto-cultura. Desejem felicidades a ele. MOURISMENT é amor.

E bora pro quarto ano.

Contratempo (2)

(23:59) Mouris: hahaha se perdeu em qual texto?
(00:00) Pedro Raychtock: no do sol
(00:00) Mouris: hahaha não entendeu?
(00:00) Pedro Raychtock: entendi um pouco, mas bem pouco
(00:00) Pedro Raychtock: huahuahua
(00:00) Mouris: haha eu enrolei demais nesse texto.
não é dos bons não.
(00:01) Mouris: não gosto de narrar cenas.
nunca gostei
(00:01) Mouris: por isso sei que não nasci pra ser escritor de romances
(00:01) Mouris: odeio narrar.
(00:01) Pedro Raychtock: engraçado porque as suas narrações de cena são as mais legais
(00:01) Mouris: hahaha
(00:08) Mouris: mas eu enrolei demais.
poderia simplesmente ter dito “entao..o cara acordou e foi olhar lá na janela, e a porra do sol não tava la não. FODEU o cara pensou, né…. ‘to ficando loco’… ai o cara olhou de nooov.. ‘PORRA MEU! CADÊ O SOL CARALHO!? FODEU MANO!’
ai o cara saiu correndo né.. foi pro outro lado da casa, e tava lá a porra do sol, DO LADO ERRADO!.. a porra do sol tava do lado onde era pra se pôr… ‘PORRA MEU! É O FIM! É A MORTE! FODEU’… ai o cara já tava na nóia né.. foi correndo gritar com a vaca da mãe dele… ‘FODEU MANHÊ! FODEU!’… e a mãe dele né, super sussa, tava manjando de tudo já… ‘ih, relaxa a bunda ae filho, tá tudo nos controle’… ‘POOOORRA MAE! O SOL TA DO LADO ERRAAAADO!!!!! SE LIGA VÉIA!’… ai a mãe dele já tava ficando puta né, tava lá toda sussa preparando o cafézinho dela, e o inutil do filho vem gritando se achando a cher.. ‘PORRA FILHO.. LARGA A MÃO DE SER BURRO! DEUS TA FODENDO A GENTE, TÁ ENTENDENDO NÃO!?’.. e o pior é que o muleque era tão idiota q não entendeu porra nenhuma mesmo né.. “POORRA FILHO! SE LIGA! A GENTE TÁ TUDO SE MATANDO AQUI, UM COMENDO O OUTRO, ATÉ AS CRIANÇAS TÃO COMEÇANDO A SE JOGAR DO 6º ANDAR DE DESESPERO.. PORRA MEU! SE ACHA O QUE!? DEUS FALOU ‘FODA-SE MANO! VOU COMEÇAR DE NOVO, SOCIEDADE DE MERDA DA PORRA’.. AGORA PÁRA DE CHILIQUE E VAI APROVEITAR A PORRA DESSE RESTO DE VIDA DE MERDA QUE TU TEM, MULEQUE DO CARALHO!”
(00:08) Mouris: “e ae o muleque sumiu né! e a porra do sol começou a se por.. ÀS SETE DA MANHÃ! ÀS SETE DA MANHÃ!”
(00:08) Mouris: “ai a véia pensou
(00:09) Mouris: ‘vou bater uma siririca né.’
(00:09) Mouris: FIM.

Da Liberdade da Alma

Um dia, seremos todos andróginos. E então, quando nossos corpos estiverem libertos, a sociedade estará pronta para a liberdade da alma quando, então, deixará de se preocupar sobre “a que” amar, para se preocupar com “a quem” amar.

16”

Ele tirou então o telefone do gancho, discou um número qualquer, e assim que atenderam, gritou com toda a força que tinha durante dezesseis segundos, até perder o fôlego, e desligar.

Contratempo

Eis que ele, acostumado a acordar pontualmente às 7:00 e ir direto à janela do quarto, onde conseguia ver belamente um Sol recém nascido, no dia de hoje se depara com um imenso vasto de nada no horizonte, ao invés do forte brilho do Sol que tanto gostava de admirar.

Fica confuso e duvida de sua lucidez.

Volta à janela, e ainda nada lá, apesar de a manhã estar tão clara como sempre. Repara então nas sombras que, hoje, surgem no lado oposto ao qual deveria.

Corre para o lado oposto da casa, e escancara a porta, se assustando de imediato com um Sol inesperado. Com urgência, corre até ela na cozinha, que preparava o café, de pé, no exato mesmo lugar e com a mesma serenidade de todos os dias.

- Você está vendo!?

- O quê filho?

- O Sol!

- Sim. Vi sim.

- Mas.. O quê… !? …

- Isso é Ele desistindo - ela diz, tranqüilamente, enquanto vira o bule sobre a xícara, que serve então a ele.

Ela percebe a contínua expressão de confusão nele, e tenta ser mais clara.

- Ele desistiu de nós. Como um artista que erra o traço, ele está, agora, apagando. Desistiu de nós e decidiu recomeçar do zero.

Pronuncia as últimas palavras virando a xícara em direção aos lábios, enquanto admira, apaticamente, as sombras no chão se aproximando de si, em efeito de um Sol nascente que, na verdade, começava a se pôr.

Be the Miracle

“Be the miracle”, escrito graciosamente em caneta bic azul sobre o post-it, que agora se encontrava grudado num cantinho da tela do computador do outro, que fica com um secreto sorriso no canto dos lábios ao ler as sutis palavras, com a gostosa sensação de ter a chance de fazer tudo dar certo desta vez.

Antes Que Você Perceba Ser Humano

Vou viajar pelo mundo, e abraçar corpos desconhecidos como fossem meus amantes de 20 anos de história.

Entrar em casas às quais nunca fui convidado e me sentar à mesa da cozinha falando sobre a novela local, esperando gentilmente que me sirvam um café, ou, oferendo-me pra tal.

Vou pegar as chaves, ajeitar o banco, e dirigir sem noção de tempo, espaço, vida, universo e tudo o mais, como fosse um jogo de vídeo game, daqueles que a gente senta e não desgruda até ter a certeza de que, enfim, acabou. E depois ainda volta e começa tudo outra vez, com a mesma paixão de antes.

Vou me apaixonar pela morena que cruzar na próxima rua à direita. Me casarei com ela, viveremos felizes para sempre, até quando não quisermos mais. E então me apaixonarei de novo, inconseqüentemente, por outras morenas, morenos, cachorros e alienígenas que a vida jogar sobre mim.

Inconseqüentemente.

Sem parar pra pensar, ou estudar, ou refletir. Apenas ir. Viver. Sem valores e regras e livros e métodos e formatos que tentem aplicar a mim. Sem valores alheios. Vou seguir a vida aos meus valores, ou até sem qualquer valor, ou moral, ou ética, ou qualquer coisa que me limite a… não viver.

Inconseqüentemente.

Vou me preocupar mais em ser feliz. Ignorar os olhares do mundo, e as expectativas sobre quem sou de pessoas que não são eu. Que não são eu. Vou me preocupar em viver.

Inconseqüentemente.

Virarei à esquerda quando tiver de virar à direita, e esperar encontrar o amor como num filme bonitinho onde tudo sempre dá certo. Tirando a parte onde tudo dá certo. Não quero que nada dê certo. Quero que aconteça. E que siga em frente. Quero crescer com cada tropeço, choro e despedidas que tiver de dar nessa vida. Todas as despedidas que tiver de dar nessa vida.

Vou parar de me preocupar em falar o correto, o belo, o esperado, o inteligente. Vou xingar e espernear por aquele que me abandonar, tudo pra crescer, e seguir em frente depois.

Vou virar jogador de futebol.

Talvez a predisposição a ser absolutamente nada do que eu pretendo me faça justamente ser o que eu deva ser. E não compreender de forma alguma o que essa frase diz é absolutamente compreensível e faz totalmente parte da arte de ser o que quiser ser, e ouvir o que quiser ouvir, e viver o que quiser viver.

Vou virar jogador de futebol, e abandonar a língua portuguesa, e cometer os maiores crimes gramaticais.

Será que, talvez, assim a gente se torne uma pessoa feliz?

O que pode me fazer uma pessoa feliz?

Vou aceitar os convites que me fizeram, terminar esse texto, e mostrá-lo a vocês. Talvez, assim, eu me torne uma pessoa feliz.

De Unknown Soldiers das Artes

Sabe… Na real mesmo, a graça é não se levar a sério.

Existem artistas de todo tipo, em todo canto. Nem precisa estar envolvido com a so-called “arte” em si, porque até os químicos, cientistas de qualquer tipo, são artistas em seus meios.

Então, na real mesmo, você pode ser artista em qualquer lugar, gênio de qualquer forma, em qualquer círculo… Mas, não tem como discutir que, o verdadeiro artista mesmo, é aquele que exerce a arte de não levar a sério.

A arte de não se levar a sério.

É essa a essência que falta a muitos, e que, normalmente, pode levar os so-called “grandes gênios em potencial” a serem absolutamente mal sucedidos e frustrados. Ou até o contrário. Talvez se levar sempre tão a sério seja justamente a essência do sucesso.

Auto-promoção talvez seja tudo.

Mas, se for mesmo…

Prefiro elogiar e admirar os gênios desconhecidos que sempre tiveram a capacidade de rir de si mesmos. Aqueles com sorrisos largos, coração grande, e chinelos nos pés.

Gênios da arte de rir de si mesmo.

Seres humanos, enfim.

Outra de Amor e Dor

- E você? Como está?

Ele então se curva em direção aos pés, e começa a retirar o cadarço de seu tênis. Se levanta de volta, pega o punho fechado da amiga, que começa a enrolar com o cordão, até dar fortes nós, que machucam a garota.

- Que porra…!?

- To te respondendo. É assim que me sinto.

- Com a mão pulsando de dor de tão presa que está!?

- Não a mão. O coração.

Prólogo

Ao caminhar pelo corredor em direção à porta, já pude notar o distante som. Logo ao abri-la, senti em mim o sutil ritmo que ecoava pelo apartamento vindo do antigo gramofone ao canto da sala. Depois de poucos instantes já percebera que Sur le Fil tocava incansavelmente, vez após outra, em toda sua miséria e tristeza. Assim como nosso retrato, que aparecia agora, ampliado, sob uma fraca luz na parede oposta à larga janela que, igualmente surpreendente, aparecia agora descoberta por inteira, como um braço à torcer pela beleza da cidade distante, que iluminava com graciosos brilhos a taça de vinho tinto, intacta, sobre o balcão da cozinha, que antes sequer que pudesse erguer em direção à minha boca, me fez notar o grande balão cor de rosa no chão da sala, com um rosto feliz minuciosa e pacientemente desenhado, e foi então que tive certeza: ela estava morta.

Despedida

O amigo o vê chegando, que se senta a seu lado.

- Estou entediado. O que faremos hoje?

- Não sei. Tenho já meus planos. Você não fará nada?

- Não. Devo ir pra casa e dormir. Deve ser o mais o próximo de animação que conseguirei hoje. E você? O que fará?

- Nada demais. Devo morrer.

- Legal.

[...]

- Só tem isso a dizer?

- Como assim?

- Acabo de dizer que vou morrer.

- E eu disse “legal”.

- Não se importa?

- Claro que me importo. Te amo. Mas você parece decidido.

- Não vai tentar me salvar? Convença-me de que é um erro!

- Mas não é um erro.

[...]

- Vou morrer.

- Cuidado pra não se machucar.

[...]

- Mas vou morrer.

- Mas até morrer pode doer né. Toma cuidado.

[...]

- Por que faz isso?

- Isso o que?

- Essa apatia toda. Não sentirá falta de mim?

- Muito. Muito. Muito.

- E então!?

- Mas você não morreu ainda.

[...]

- E quando eu morrer? Quando toda essa saudade bater aí?

- Aí eu viro para meu outro amigo, num dia comum, e quando ele me perguntar o que pretendo do meu dia, digo que morrerei.

- Por mim?

- Não. Por saudade.

- A saudade é tão grande assim?

- Maior que você.

- Não me ama então?

- Amo sim. Mas amo mais a falta que você me faz.

- Então eu aqui agora não te afeta em nada?

- Não.

- E quando eu te afetarei?

- Quando você se for daqui.

- Não prefere me querer enquanto estou aqui agora? Logo terei de ir. Já estou atrasado.

- Não consigo te querer agora. Você já está aqui.

- Vou me sentar ali então.

[...]

- Volte pra cá.

- Me quer agora?

- Agora sim.

- Mas ficarei aqui então. Aqui não te quero.

- Por que não?

- Porque você não está aqui.

[...]

- Vou morrer.

- Você já disse.

[...]

- Quando você morrer, sentirei sua falta.

- Você também já disse.

[...]

- Não temos nada mais a dizer então?

- Acho que não. Acho que você já pode ir morrer.

- Adeus então.

- Adeus. E se cuide, novamente. Tente não se machucar.

- Tentarei. Te amo.

[...]

- Não dirá que me ama também?

- Agora não. Vou esperar você morrer.

- Ok.

- Adeus.

- Adeus.

Sobre a Falta de

Hoje me senti acolhido.

De trás da grande janela do escritório, olhei para cima e vi as nuvens. Nuvens cinzas, carregadas, e a garoa caindo de leve, tranqüila.

De trás da grande janela, vi o dia cinza, pessoas de peles saturadas, quase uma película em p&b. Por de trás da grande janela, assisti, por instantes, um filme de 1942. Mas antes que sequer me sentisse habituado às cores e falta de, um grande buraco nas nuvens se abriu, permitindo a passagem de um enorme facho de luz, que mesmo que eu odeie a palavra a “facho”, era esplêndido. E nem era esplêndido. Era uma luz comum, a luz do sol, de todos os dias, desde que o sempre é sempre. Mas era esplêndido, pra mim, ali. Meu filme logo pulou décadas e décadas no tempo, parando em 2008, no hoje, no agora, nesse instante. E no facho de luz, que tanto odeio o nome e tanto admiro sua beleza, vi ali a possibilidade de mudar tudo. Se um filme de 1942 pode se transformar no filme da minha vida de 2008, minha vida de 2008 pode se transformar em qualquer coisa, ainda que não seja um filme. Ou talvez seja.

O facho de luz estava ali para me lembrar que apesar de todas as gotas de chuva que possam cair, pode existir sim um lugar no meio da rua, uma grande mancha seca e dourada no chão, brilhando, à parte de todas as saturações do resto, à parte de todas as gotas de chuva que caiam sobre nós. O grande buraco na nuvem estava ali para me lembrar que existe sim um local aproveitável sob a chuva.

Mas depois de tudo isso, acabei abandonando todas essas idéias, porque, afinal… Na verdade, toda gota de chuva é aproveitável. Tudo existe para nós, para o nosso melhor. O que varia, no fim da história, é o que fazemos com o que nos é dado. A chuva está lá. Amargure-se com ela, procure um buraco na nuvem, ou aproveite tudo e dance na chuva, por mais cliche que soe. Afinal, já sabem o que digo sobre cliches. Mas nem é sobre cliches que vim falar hoje. É sobre a chuva. E a falta de.

Nem é.

É sobre a vida.

E a falta de.

Maqêdo | O Fim

E à frente das altas chamas da fogueira ao fundo, queimando forte em meio a todos, Maqêdo caminha até a borda, e ergue a cabeça em afronta a eles, enquanto diz, como um último suspiro de sanidade em si:

“Este é o fim.”