Neste dia, então, ele decidiu que queria uma kombi de cor rosa-choque com antenas de televisão no teto, como que retirado de um filme esquisito do início dos anos 90, norte-americano, claro. Certamente devia ter um algo que o relembrasse de sua infância.
Não que sua infância tivesse sido exatamente feliz - porque, como se deduz, não é fácil ser uma criança verde no início dos anos 90, por mais que kombis rosa-choque com antenas no teto fossem absolutamente admissíveis e toleráveis. Pra compensar essa discrepância, ele jogava gatos vivos do salão de festas de seu prédio - sim, o prédio tinha 18 andares e, sim, o salão ficava na cobertura.
Tivesse controlado seus ímpetos um pouco, talvez seus pais não se irritassem tanto com ele naqueles tempos, o que freqüentemente resultava nas ditas “intervenções” que, com razão, via com inteira apatia como algo sinceramente estúpido e inútil mas, sem muito o que pudesse fazer, porque, como sabemos, ele era verde, ele seguia então com aquela cena esquisita onde se via seu pai sentado em um local do sofá, sua mãe no local oposto do mesmo sofá - mas apenas por falta de outro lugar para sentar - e ele, na poltrona. E, então, os interrogatórios, que nunca fugiam da essência básica das perguntas de seus pais a ele: “por que você é assim?”.
Não importa qual o motivo que tivesse acionado a “intervenção”, ela sempre acabava sem solução, os gatos continuavam sendo atirados a Deus, e ele continuava sempre verde.
Fato que, certo dia, subiu à cabeça de seu pai que, aos seus dezesseis anos, encurralou-o perguntando-o: “filho, por que você é verde?”, ao que ele imediatamente respondeu “pai, por que você trafica drogas?”, o que fez toda a discussão morrer para nunca mais voltar à tona.
Depois de mais alguns anos, eles entenderam que não havia qualquer coisa que fizesse-o, algum dia, abrir mão de sua religião - ele tinha a mais sincera fé de que, sim, gatos eram abençoados por Deus de forma especial, por ter lhes dado o poder do vôo - o problema era que eles, os gatos, apenas não haviam sido avisados disso.
“Acredite nos gatos.”
Sua vizinhança, que desde muito tempo já havia aprendido a ignorar sua mais simples existência, quis incendiá-lo ao ver - e ouvir - as quatro caixas amplificadoras acopladas ao seu revolucionário veículo de transporte pelo espaço/tempo - também nomeado pelos outros por “kombi colorida hiper-esquisita”.
E, não, apesar de seu psicólogo ouvir dele até o dia de hoje ter superado totalmente o fato, não, não, ele ainda sente ódio de cada uma daquelas pessoas por terem sujado seu revolucionário veículo atacando-lhe ovos, ovos estragados, ovos fritos, ovos fritos sem quebrar a gema, omeletes, e x-eggs - ódio que, verdade seja dita, foi amenizado quando ele decidiu ouvir a voz da vingança e fez todos os gatos da vizinhança, um por um, comerem ovos por cinco dias, cada um - ovos inteiros, intactos, garganta abaixo - o que fez confirmar sua teoria dos gatos abençoados por Deus quando todos eles começaram a milagrosamente botar ovos, initerruptamente.
“Acredite nos gatos.”
Não que seus pais algum dia tenham-no compreendido, mas também tampouco tinham a mais rasa intenção de tal, assim como ele que, também, nunca precisou de qualquer compreensão alheia para realizar qualquer coisa.
E, não que você algum dia vá entender, mas, sim, ele comprou sua própria casa e, sim, ela tem mais de um andar e, sim, existe um estilingue de tamanho maior que o normal construído na janela de seu quarto, apontado para o céu.
E, sim, ele tem assinatura da Sky - vinte e quatro delas inclusive, como vinte e quatro pessoas diferentes - e, sim, sua casa pode ser vista de uma certa distância.
E, sim, ele é feliz.